O tribunal superior da União Europeia (UE) decidiu hoje que a decisão da Comissão Europeia de redigir severamente partes importantes dos contratos de vacinas contra a COVID-19 com empresas farmacêuticas durante a pandemia violou as obrigações de transparência da comissão.
O Tribunal de Justiça Europeu concluiu que a comissão não forneceu acesso público suficiente aos acordos de compra de vacinas contra a COVID-19, em uma decisão que pode representar um golpe para a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, na véspera de sua tentativa de reeleição, de acordo com a Associated Press (AP).
A decisão foi tomada em resposta a contestações legais movidas por legisladores da UE e cidadãos comuns que buscavam uma divulgação mais completa dos acordos multibilionários sobre vacinas.
Ela destaca preocupações constantes sobre o sigilo em torno do processo de aquisição de vacinas da UE, uma questão controversa desde os primeiros dias da pandemia.
“A Comissão não deu ao público acesso amplo o suficiente aos contratos para a compra de vacinas contra a COVID-19”, disse o tribunal em seu julgamento, apontando várias áreas onde o órgão executivo não conseguiu ser suficientemente transparente.
Em resposta à decisão, a comissão escreveu: “A Comissão precisava encontrar um equilíbrio difícil entre o direito do público, incluindo os eurodeputados [membros do Parlamento Europeu], à informação e os requisitos legais decorrentes dos próprios contratos da COVID-19, que poderiam resultar em pedidos de indemnização à custa do dinheiro dos contribuintes”.
A eurodeputada verde Tilly Metz, uma das deputadas que apresentou o pedido original, disse: “Esta decisão é significativa para o futuro, pois espera-se que a Comissão Europeia realize mais aquisições conjuntas em áreas como saúde e potencialmente defesa”, relatou a Euractiv.
“A nova Comissão Europeia terá que adaptar seu tratamento de solicitações de acesso a documentos para estar em conformidade com a decisão de hoje”, disse Metz.
No entanto, a advogada holandesa Meike Terhorst disse ao The Defender que a decisão do tribunal não é a vitória que parece. Ela argumentou que o tribunal da UE deu à comissão uma “brecha gigante” para manter partes dos contratos em segredo “para proteger ‘interesses comerciais’”.
“Não é possível proteger a saúde pública e a transparência total e, ao mesmo tempo, proteger os interesses comerciais do fornecedor”, disse Terhorst. “Nós, o público, não teremos acesso às informações de que precisamos. A brincadeira de gato e rato continua.”
A comissão, que tem dois meses para apelar da decisão, disse que “estudaria cuidadosamente os julgamentos do Tribunal e suas implicações” e que “reserva suas opções legais”.
Escala e velocidade de compras sem precedentes
Em 2020 e 2021, von der Leyen negociou acordos de compra de vacinas contra a COVID-19 com várias empresas farmacêuticas, incluindo Pfizer, Moderna e AstraZeneca, de acordo com a AP.
Os estados-membros da UE determinaram que a Comissão Europeia organizasse a aquisição conjunta de vacinas e liderasse as negociações com os fabricantes.
A escala e a velocidade dessas compras foram sem precedentes. De acordo com o tribunal, aproximadamente 2,7 bilhões de euros (US$ 2,95 bilhões) foram rapidamente mobilizados para fazer pedidos firmes de mais de 1 bilhão de doses de vacinas. Essa abordagem de aquisição conjunta permitiu a rápida aquisição de vacinas para todos os 27 estados-membros da UE.
Inicialmente, von der Leyen recebeu elogios por sua liderança durante a crise da COVID-19, particularmente por seu papel em garantir acesso coletivo à vacina para cidadãos da UE. No entanto, os holofotes rapidamente mudaram para preocupações sobre a falta de transparência das negociações.
Em 2021, vários membros do Parlamento Europeu solicitaram detalhes completos dos acordos. A comissão, citando razões de confidencialidade, concordou em fornecer apenas acesso parcial a certos contratos e documentos, que foram colocados online em versões redigidas.
A comissão também se recusou a revelar quanto pagou pelos bilhões de doses que garantiu.
Preocupações com acordos secretos com a Pfizer
O CEO da Pfizer, Albert Bourla, recusou-se duas vezes em 2022 a testemunhar perante o comitê especial do Parlamento Europeu sobre COVID-19. Bourla deveria enfrentar perguntas difíceis sobre acordos secretos de vacinas e negociações entre a Pfizer e a Comissão Europeia.
De particular interesse foram as mensagens de texto entre Bourla e von der Leyen que precederam um contrato de vacina multibilionário. Em janeiro de 2023, o The New York Times processou a Comissão Europeia por sua falha em divulgar as mensagens.
O processo ocorreu após um inquérito realizado em janeiro de 2022 pelo ombudsman da UE, que acusou a comissão de má administração no tratamento de uma solicitação anterior das mensagens.
Em junho, um tribunal belga abordou a questão das negociações secretas entre Bourla e von der Leyen, com um ex-lobista do Parlamento Europeu alegando “destruição de documentos públicos” e alegando que von der Leyen violou o código de conduta da comissão.
Autoridades da comissão argumentaram que as mensagens não continham nenhuma informação importante e até agora se recusaram a fornecê-las, de acordo com a AP.
O Ministério Público Europeu (EPPO) abriu em 2022 uma investigação sobre a aquisição de vacinas contra a COVID-19 na UE durante a pandemia. Esta investigação decorre de uma queixa criminal apresentada por um indivíduo, com os governos da Hungria e da Polônia posteriormente se juntando ao processo, informou a euronews. O EPPO adiou o caso até dezembro.
Implicações para a Comissão Europeia e von der Leyen
A decisão do tribunal ocorre em um momento crítico para von der Leyen, apenas um dia antes de o Parlamento Europeu votar sua renomeação como presidente da comissão.
Von der Leyen já havia conquistado o apoio da maioria dos líderes da UE em junho. Para garantir sua posição, ela agora precisa obter apoio de pelo menos 361 MEPs no Parlamento Europeu de 720 assentos, informou a WIONews.
Esta decisão apresenta um dilema para os Verdes, que iniciaram o desafio legal contra as redações da comissão. Nos últimos dias, von der Leyen tem cortejado os Verdes para reforçar o apoio à sua nomeação antes da votação.
Durante uma conferência de imprensa em Estrasburgo na quarta-feira, Manon Aubry, uma eurodeputada francesa do grupo de Esquerda, expressou fortes preocupações sobre a “falta de transparência” da Comissão Europeia.
Logo após a decisão do tribunal da UE, a eurodeputada alemã Christine Anderson disse hoje que pediria a remoção de von der Leyen e a continuação da investigação criminal de suas ações: